Com um salto John se levanta da cama, o susto o dispersa e o faz esquecer do delicioso sonho que estava tendo. O castelo todo chacoalha como se fosse uma gelatina.
– Meu Deus, o que será que está acontecendo.
– BOOOOOOOM!
Outro estouro em seguida, e ele percebe que esse veio lá de fora, ainda mais alto que o anterior. Se apressa em colocar a roupa, abre a porta e com o desespero dispensa a escada com um salto, chegando rápido ao andar inferior. O chão está coberto de cacos de vidro dos quadros que despencaram das paredes, o lustre enorme que antes era onipotente agora chacoalhava como se fosse de brinquedo. John ouve gritos, percebe que a porta dos fundos não está simplesmente aberta, foi destruída e se encontra completamente em pedaços do lado de fora. Ele corre instintivamente para o quintal, que no começo foi seu playground, durante muito tempo depois seu campo de treinamento, e que hoje havia se transformado numa zona de guerra.
John não acredita no que vê, sua mente demora a processar os fatos, como se fosse impossível, inadmissível, inaceitável. Uma cratera gigantesca está aberta onde antes existiam as árvores, onde existia uma mata... a sua mata, cheia de armadilhas, cheia de truques. E agora só havia um buraco enorme com terra firme, a poeira que estava alta, devido as explosões, agora se acalmava no solo duro. E ele viu... seu Mestre, firme, com as mãos rijas, punhos fechados, de costas para si. Estava escuro, a lua se escondia e todo o cenário era iluminado pela luz roxa dos cristais do castelo.
Dentro da cratera à frente de seu Mestre estavam dois sujeitos que nunca havia visto antes, observou-os rapidamente, mas absorvendo o máximo de detalhes. O da esquerda era loiro, tinha o cabelo fino e curto, de lado, o rosto largo, cheio, os olhos azuis, brilhantes, místicos, grandes, era uns dez centímetros maior que o outro, um metro e oitenta cinco, por aí. Era forte, bem forte, John podia ver seus músculos rígidos por baixo da roupa, e não acreditava no que ele trazia consigo, não podia ser, era a Zambata¹, pelo que John sabia essa era uma espada de duas mãos muito antiga e procurada pelo mundo todo, e além de ser extremamente afiada era muito pesada também, e ele empunhava ela com uma mão só, apontada para seu Mestre.
O sujeito da direita tinha cabelos negros, lisos e grossos, completamente despenteados, jogados ao vento, ou ao jeito que as passadas de mãos os deixassem. Tinha o rosto distante, fino, firme, inexpressivo, não conseguia decifrar um sentimento, um desejo se quer, nada transpassava por ali, nem parecia que estava numa batalha. Seus olhos eram pequenos, vermelhos, enigmáticos, completamente diferentes de qualquer olhar que já tivesse visto, não que tivesse visto muitos, é muito raro encontrar olhos vermelhos. Seus trajes que eram estranhos, nada apropriados para uma batalha, uma capa longa e comprida que circundava todo o corpo com vários escritos em Kanji² e desenhos de dragões, todos em branco destacando com a capa negra. Podia se ver uma bota alta nos pés sem conseguir identificar seu fim e John ficaria feliz se tivesse parado por aí. Com uma das mãos o sujeito segurava um corpo nos ombros, sua mente foi rápida em identificar mas ele não queria aceitar, era mais inadmissível que aquela cratera gigante e sua batalha, que John nem sequer sabia o motivo. Era ele, seu conselheiro durante tantos anos... Jeffrey estava jogado como um saco de batatas no ombro daquele sujeito, e John não sentia energia alguma naquele corpo.
Com um salto John chegou ao lado de seu Mestre, os estranhos sujeitos olharam rapidamente para ele e voltaram a atenção para seu Mestre, como se fosse insignificante sua chegada.
– Mestre, o que está acontecendo aqui? Quem são esses?
– John, fique fora disto... é um assunto particular.
– Eu não posso permitir que eles levem o Jeffrey, eu vou vingá-lo SEUS DESGRAÇADOS! – E com um movimento apressado John saca duas Katanas³, que antes estavam invisíveis, de suas costas e salta em direção ao que está segurando seu conselheiro.
O alvo de John nem sequer mexeu um dedo, olhou rapidamente para cima e esperava a queda dele sem fazer nenhum movimento."Será que ele não vai desviar" era a única coisa que passava pela cabeça de John. No último instante, faltando centímetros para John rasgá-lo com suas espadas, o loiro com um movimento incrivelmente rápido bloqueia o ataque com sua enorme espada e com a pressão do contra-ataque ainda o faz retornar para o lado de seu Mestre.
– Mike, faça-o retornar, se não quiser perder também seu aprendiz, você sabe que não estamos interessados nele, mas se ficar no nosso caminho...
– Com um ar sério o loiro deu seu decreto.
– Quem você pensa que é!? – John gritou perdendo a paciência. Não era mais um moleque, por que não davam atenção pra ele, por que não lhe contavam o que se passava.
– John? – Seu Mestre o chamou baixinho encarando-o e apontando com um dedo. – Isso não é problema seu, eu tenho que terminar de acertar um assunto com esses caras e não quero que você se meta nisso, eu irei explicar tudo depois, volte pra dentro AGORA!
John não conseguia acreditar, seu Mestre lhe negando uma explicação, ele não queria saber depois, ele ainda era afobado e ansioso, queria saber agora. Não iria esperar, se seu Mestre não queria falar ele respeitava, mas iria fazer esses dois idiotas abrirem suas matracas, e era agora. Intensificou toda a energia que estava no seu corpo, um vento começou a rodeá-lo, seus cabelos estavam esvoaçando, sua roupas começaram a rasgar em vários lugares, seus músculos cresciam, sua energia estava se multiplicando muito rápido, o chão afundou ao seu redor.
– Você tem potencial criança... – O moreno agora estava atento a batalha, mas ainda não largara o ar despreocupado, John o fitava pronto pra atacar e dessa vez sim arrancar sua cabeça fora. – Mas isso aqui não é com você, e nem pra você, não gosto de tirar vidas à toa, deixo você ver o final. – E piscou para John.
– Seu idiota, pare de ser tão prepotente, quero ver você me enfrent... – Faltaram forças para John terminar a frase, suas energias estavam se esvaindo em questão de segundos. Aquela piscada, era algum truque, algum poder daquele maldito. John não conseguia se mexer, não conseguia mais falar, estava perdendo todo seu poder, ele sentia sua energia desaparecendo e o moreno sendo preenchido com ela. O sono o estava dominando, seus olhos começaram a se fechar. "Não, eu preciso ficar acordado, preciso lutar", sua mente em vão tentava manter seu corpo em pé, tudo foi ficando escuro... escuro... até que se apagou.
Aos poucos John foi recobrando a consciência, parecia que tinha dormido muito tempo, estava bem, seguro, ainda não lembrava do que se passara... abriu os olhos e percebeu que o mundo estava ao contrário... Não, ele estava pendurado de ponta-cabeça, com as pernas e pés amarrados num firme galho da árvore mais próxima da cratera. Isso, a cratera, lembrou de tudo.
Ao longe via os dois estranhos atravessarem um grande portal, agora carregando dois corpos. "Merda", seu mestre tinha sido apanhado também, e pelo que ele sentia não restava energia alguma também naquele corpo, ele não podia ter morrido, não pode... John energizou sua mão e cortou as cordas, correu em direção a eles, precisava passar pelo portal também. O loiro passou sem se quer olhar pra trás carregando seu Mestre nos ombros. O moreno parou, jogou o corpo do velhote para dentro do portal, virou-se para trás já esperando encontrar John. Um cachorro apareceu vindo do portal e ficou ao lado do moreno, só assistindo o desfecho como se precisasse confirmar aquilo com os próprios olhos.
– Não temos ordem para levá-lo também criança. – O moreno disse firmemente, o portal começara a se fechar em volta dele.
– NÃÃÃOOOOO! – John se desesperou, corria o mais rápido que podia. Que desgraçado, ele com certeza era mais novo que John, pelo menos pela aparência, no máximo vinte e sete e olha lá, que prepotente, de novo. – Dessa vez eu vou conseguir! – Estendeu a mão para alcançar o portal, estava tão perto, com certeza daria tempo, o portal ainda era do tamanho de uma porta e ele estava a poucos metros.
Sem dizer mais nenhuma palavra o moreno desconhecido, que parecera anteriormente tão inofensivo aos olhos de John, levantou a palma da mão direita em sua direção e tudo começou a tremer. John viu uma explosão gigantesca de energia em forma de ondas emanar daquela mão, ele recebeu um impacto monstruoso, perdeu o chão, estava voando, arremessado por um poder incrível, e estava voando para longe, quase da altura do castelo, quando viu o mesmo ir ao chão, desmoronar por inteiro. Lá de cima ele ainda viu o moreno virar as costas, entrar no portal e sumir.
John arremessou um de seus cristais tentando alcançar o pequeno buraco que restava agora do portal para se teleportar para lá, mas foi inútil, já estava muito longe, quase saindo das redondezas da propriedade e o cristal ficou pelo meio do caminho. Se teletransportou para ele mesmo assim, era melhor do que cair daquela altura, e já estava todo dolorido por dentro, provavelmente alguns ossos quebrados pela força do impacto que o arremessou.
Apareceu no meio da mata restante que circundava o antigo castelo que agora estava em destroços, deitou-se no chão, não estava fraco, mas sem fôlego, assustado, precisava respirar, era muita coisa para digerir em um único dia. Seu Mestre, seu conselheiro... aquele cara conhecia seu Mestre, e com certeza não era de ontem, ele o chamou de Mike, um apelido que poucos conheciam. E que poder era aquele, nunca tinha visto nada igual. John precisava encontrar eles, só não sabia por onde começar.
¹- Zambata: Espada lendária de duas mãos com este formato.
²- Kanji: Os kanji (漢字) são caracteres da língua japonesa com origem de caracteres chineses.
³- Katana: Sabre longo japonês.